Erlkönig e o delírio

Você está delirando? Não está falando coisa com coisa! Típica frase que ouvimos quando falamos algo, geralmente uma verdade, que não deve vir à tona para evitar maiores constrangimentos e situações de saia-justa. Mas, nem sempre por trás de uma frase ou comentário delirante há verdades disfarçadas, ainda mais em situações às quais estamos sóbrios.

Afinal, se dizemos coisas por influência do álcool simplesmente podemos ser ignorados devido ao efeito do álcool. Não é de hoje que sabemos que sob o efeito do álcool falamos tudo aquilo que está entalado em nossa mente, aquelas coisas que guardamos para nós mesmos com o intuito de comentar em rodinhas de amigos mais reservadas.

Se, como diz o ditado latino, Uino Ueritas (A verdade do vinho), que verdade haveria numa situação de delírio real? E, se há alguma verdade disfarçada num delírio, que importa seu significado? Muitas vezes, não há importância nenhuma. O que vale são as consequências do delírio.

Um dos delírios mais conhecidos da literatura brasileira foi bem descrito por Machado de Assis em suas Memórias Póstumas de Brás Cubas. No capítulo VII, o delírio de Brás Cubas o leva a uma viagem à origem dos séculos no lombo de um hipopótamo. Visto de fora da vida, Brás Cubas logo deixará de pertencer ao mundo dos vivos. No entanto, não há nada de aterrador nessa passagem, já que a narração se dá do ponto de vista de um defunto-autor.

O mesmo não ocorre na balada Erlkönig, de Goethe. Não é segredo que numa floresta com suas árvores, rios, clareiras estejam escondidos espíritos e entes sobrenaturais. O homem se torna um ser pequenino diante dos grandes sortilégios da natureza e das coisas que a mente humana não tem discernimento para entender.

Em suma, um homem e seu filho cavalgam pela floresta no lombo de um cavalo. O garoto ardia em febre e começa a escutar vozes em meio ao som do vento que soprava fortemente. Assim, o rei dos Elfos o convida para brincar com suas filhas. O pavor do menino aumenta e ele abraça o pai desesperadamente. O pai insiste que não há nada. Para ele, um adulto consciente, seu filho não fala coisa com coisa, está delirando. Para o filho, não há nada mais aterrador do que se ver surpreendido por uma força sobrenatural.  Vejamos aqui todo o episodio:

ErlkönigJohann Wolfgang von Goethe

Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?

Es ist der Vater mit seinem Kind.

Er hat den Knaben wohl in dem Arm,

Er faßt ihn sicher, er hält ihn warm.

“Mein Sohn, was birgst du so bang dein Gesicht?”

“Siehst, Vater, du den Erlkönig nicht?

Den Erlenkönig mit Kron’ und Schweif?”

“Mein Sohn, es ist ein Nebelstreif.”

“Du liebes Kind, komm, geh mit mir!

Gar schöne Spiele spiel ich mit dir;

Manch bunte Blumen sind an dem Strand,

Meine Mutter hat manch gülden Gewand.”

“Mein Vater, mein Vater, und hörest du nicht,

Was Erlenkönig mir leise verspricht!?”

“Sei ruhig, bleibe ruhig, mein Kind;

In dürren Blättern säuselt der Wind.”

“Willst, feiner Knabe, du mit mir gehn?

Meine Töchter sollen dich warten schön;

Meine Töchter führen den nächtlichen Reihn,

Und wiegen und tanzen und singen dich ein.”

“Mein Vater, mein Vater, und siehst du nicht dort

Erlkönigs Töchter am düstern Ort?”

“Mein Sohn, mein Sohn, ich seh es genau:

Es scheinen die alten Weiden so grau.”

“Ich liebe dich, mich reizt deine schöne Gestalt;

Und bist du nicht willig, so brauch ich Gewalt.”

“Mein Vater, mein Vater, jetzt faßt er mich an!

Erlkönig hat mir ein Leids getan!”

Dem Vater grausets, er reitet geschwind,

Er hält in Armen das ächzende Kind,

Erreicht den Hof mit Mühe und Not —

In seinen Armen das Kind war tot.

(Fonte: REINERS, Ludwig: Der ewige Brunnen: ein Volksbuch deutscher

Dichtung, uma antologia de poemas coletados e publicados pelo compilador (1896-

1957), Verlag C.H. Beck, Munique, 1955, 946 p.)

Rei dos ElfosJohann Wolfgang von Goethe

Quem cavalga tão tarde pela noite e ao vento?

É o pai com o seu filho;

Ele segura a criança bem nos braços,

Segura-o com firmeza, mantém-no quente.

“Meu filho, por que escondes tão receoso teu rosto?”

“Pai, não vês o Rei dos Elfos?

O Rei dos Elfos com coroa e cauda?”

“Meu filho, é um fio de névoa.”

“Tu, querida criança, vem comigo!

Maravilhosos jogos eu jogarei contigo,

Na praia há muitas flores coloridas,

A minha mãe tem várias túnicas douradas.”

“Meu pai, meu pai, não ouves

O que o Rei dos Elfos baixinho me promete?”

“Calma! Sossega, meu filho,

O vento é que murmura nas folhas secas.”

“Queres, belo garoto, vir comigo?

As minhas filhas te farão a corte;

Minhas filhas conduzem a dança noturna,

E embalarão, dançarão e cantarão para adormeceres.

“Meu pai, meu pai, não vês ali

As filhas do Rei dos Elfos no local sombrio?”

“Meu filho, meu filho, eu vejo perfeitamente:

São os velhos salgueiros de cor cinzenta.”

“Eu amo-te; encanta-me a tua linda figura,

E se não vieres por bem, eu usarei da força.”

“Meu pai, meu pai, ele agarra-me agora,

O Rei dos Elfos machucou-me!”

O pai estremece, ele cavalga rapidamente,

Ele segura nos braços a criança gemente,

Com muito custo à fazenda ele chega.

Nos seus braços a criança jazia morta.

Fonte: Tradução para o português pode ser encontrada em:

http://www.concertino.com.br/cms2/files/Erlknig.pdf

Delírio febril ou vítima de forças sobrenaturais, pouco importa. Fato é que o desfecho é trágico: a morte como resultado. Teria a febre matado o garotinho ou os espíritos e entesa da floresta deram sua contribuiçãozinha?  Deixo isso ao critério do leitor que poderá refletir sobre isso ao som de Jessye Norman, quem interpreta a versão de Franz Schubert.

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