Gentilmente…

Gentilmente, ele tirou os óculos, e os pôs sobre a cômoda. Desabotoou a camisa, os punhos, o colarinho. Jogou-a no cesto de roupas sujas. Tirou os sapatos. As meias, que tiveram o mesmo destino da camisa. Desabotoou sua calça, e sentou-se à beira da cama.

Tornou a pegar os óculos, e gentilmente, colocá-los sobre o nariz e as orelhas. Ligou a TV, e viu as notícias de hoje. Um homem havia se matado, jogando-se do alto de um prédio. Uma mulher perdeu seu bebê, ao parar para olhar uma vitrine de roupas. Os Estados Unidos em crise econômica. As reservas naturais do país sendo destruídas. Pessoas de diversos lugares morrendo no trânsito. Pessoas sofrendo com fome. Pessoas sofrendo de doenças horrendas.

Tirou, gentilmente, os óculos outra vez. Esfregou os olhos com os dedos. Para tentar fazer a dor diminuir. A dor que sentia por não conseguir se ajustar à vida ordinária que todos vivem. E que se sentem felizes em ter. Olhou o retrato dela. Enxergava apenas um borrão.

Gentilmente, pôs os óculos outra vez. Agora via o rosto dela, todos os traços, todo o brilho nos olhos dela e dele. O sorriso dela. O jeito que o cabelo dela era jogado pelo vento, no momento da foto. Olhou para seu próprio rosto na foto. E viu seu próprio reflexo. Nem em um milhão de anos parecia a mesma pessoa.

Tirou os óculos, gentilmente. As lágrimas que agora lhe escorriam dos olhos, também vieram, gentilmente, como a aplacar a dor que sentia. Ela havia ido embora fazia já 10 anos. 10 anos que ele, todos os dias, praticava o mesmo ritual. Todos os dias, lembrando dela. Todos os dias, sabendo que ela nunca voltaria.

Gentilmente, colocou os óculos de volta. Já era o momento de superar tudo isso. O momento havia chegado, finalmente. Depois de todo o planejamento, de tudo conferido, de tudo feito. Ela não mais existia, e logo, ele também não. Tirou as calças, a roupa de baixo. Deitou-se na cama, olhando para cima, os olhos abertos. O espelho no teto, que havia sido idéia dela, lhe mostrava como o tempo havia passado. Os pêlos em seu peito, antes morenos, agora eram cinza. Seus próprios cabelos, com o mesmo tom de cinza. Sobrancelhas, pêlos pubianos, os pêlos das pernas. Cinza. Cinza, como todos os seus dias, desde que ela se fora.

Tirou os óculos, gentilmente. Lembrou-se da consulta com o médico, ocorrida há seis meses. O câncer havia se alastrado. Tomado seu corpo. O médico havia lhe dado seis meses de vida, ainda. Não havia o que fazer. Apenas esperar. Mas ele cuidou de tudo. Deixou suas posses para os filhos. Igualmente dividido, como ela gostaria. Não gostava que fosse feita diferença entre qualquer um dos três filhos. Todos estavam já bem casados, com bons empregos. Só saberiam de tudo quando ele tivesse ido.

Voltou à, gentilmente, colocar os óculos. Lembrou-se da primeira noite com ela. Quando os sonhos não tinham limites, quando a vida era mais simples. Apenas eles dois, quartos de motéis. O espelho no teto foi idéia dela. Para que nunca se esquecessem do momento na vida de ambos em que tudo era perfeito. Quando eram só amor. Só um para o outro. Completos. Depois vieram as crianças, os problemas de ambos com o trabalho. As dificuldades financeiras. Tudo havia sido superado. Lembrou-se daquela tarde chuvosa quando deram seu primeiro beijo. A lanchonete em que a pediu em namoro. A primeira noite, novamente. O restaurante onde a pediu em casamento. O casamento. A lua de mel. E os filhos. Todos lhe davam orgulho, ainda que não fosse exatamente o que tinha sonhado. Mas eram seus filhos e os amava da mesma maneira.

Gentilmente, tirou os óculos. A visão se turvava. “Então é agora” pensou. Mais uma vez, lembrou-se da primeira noite. Quando ela se despiu. A primeira noite. Quando ela veio ao seu encontro na cama. A primeira noite. O beijo profundo, com o calor do corpo dela sobre o seu. A primeira noite. Quando ela o enlaçou com as pernas, e ele se sentiu dentro dela. A primeira noite. Quando ela, gentilmente, tirou seus óculos.

Não havia mais sons. Não havia mais luz. Nada.

Apenas a lembrança dela, gentilmente, tirando seus óculos.

Uma luz surgiu. Ele não conseguia definir o que era. Apenas a dor havia ido embora. Não havia som, não havia nada. Só ele e a luz.

A luz se aproximou. Cada vez mais. Até quase cegá-lo.

Ele sentiu as mãos passando por seu rosto. Ele reconhecia aquele toque. Como na primeira noite. Quando ela tirou seus óculos.

Sentiu algo se aproximando de seu rosto. Algo que pousou em seu nariz, e orelhas. Seus óculos. Abriu os olhos, e viu o rosto dela.

Como na primeira noite. Para sempre.

Texto editado anteriormente no Talicoisa.

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