Aeternus – Cap. I

Eu nasci quando o tempo ainda não era contado. Não sabíamos separar luas, meses, anos. Só sabíamos que havia luz, e depois de um tempo, tudo se tornava escuro. E voltava a haver luz. Num ciclo interminável.

Dessa época, me lembro de ver meus amigos, companheiros, mulheres (quando ainda não havia uma sociedade pra rotular comportamentos ou relacionamentos) envelhecendo, ficando com os cabelos do corpo brancos, ou devorados por feras, e morrendo. Mas não eu.

Nada disso ocorria comigo. Nada. Lembro-me de uma infância longínqua, de brincadeiras com aqueles que vi envelhecer, mas ao chegar a uma determinada idade, tudo parou. Nem um fio branco. Nem uma ruga. Nem uma mancha de cansaço. Nem uma doença. Nem um ferimento. Nada.

Segui com eles até ficar sozinho. Enterrei cada um deles. Naqueles tempos, fazíamos isso apenas para esconder os corpos das grandes feras, e era horrível ver amigos e amigas sendo desfeitos por garras e dentes. Isso se aprendia desde a infância.

Não havia palavras, não havia língua, não havia eloqüência. Mas eram momentos felizes. Não sabíamos o que havia no céu, não entendíamos como as aves voavam. Mas éramos felizes.

Segui por um tempo sem fim, caçando minha comida, colhendo frutas. Sempre mantinha uma fonte de água por perto. Embora certas épocas no deserto me fizessem entender que eu não precisava tanto disso.

Sim, fui encontrando tribos, que não me entendiam, nem eu a eles. Ficava o tempo possível pra aprender a me comunicar com eles, fazia novos amigos, que com o tempo, também se iam. E sempre olhava meu reflexo na água dos rios e lagos. E nada se alterava.

Com o tempo fui encontrando tribos maiores. Que formavam povoados. Não queria mais ver os amigos indo. Parei de me manter tempo demais em tais lugares. Até o dia que, ao retornar a um desses povoados, me deparei com algo diferente. Eles estavam construindo ferramentas, armas. Decidindo lutar contra outro pequeno povoado que lhes forçava a fazer algo que não queriam. Participei da luta. Ironicamente, sem nunca ter empunhado uma arma, saí sem sequer um ferimento. Vencemos. E tomamos pra nós o que era deles. Alguns de nós morreram. Mas vencemos.

As coisas prosseguiam, e, apesar do que aqueles que vocês chamam de Historiadores afirmem, certas coisas não aconteceram isoladamente. Alguns povos entenderam como plantar, outros aprenderam com eles, e outros ainda forçaram os primeiros a ensiná-los. Os animais simplesmente ficavam juntos, porque eram alimentados. E logo não se precisava mais caçar, a comida era quase sempre farta, e a água estava sempre próxima. O sexo era livre, não havia diferenças, preconceitos, ideais.

Mas eventualmente, ocorriam disputas. Mesmo dentre os habitantes de um mesmo povoado. E foi necessário criar-se aquilo que hoje é chamado de lei.

Os Deuses antigos? Zeus foi um grande homem. Insaciável com mulheres, um grande guerreiro, um homem poderoso. Ele derrotou o tempo, e seu nome permaneceu na Eternidade. Poucos ainda hoje compreendem que Cronos é o tempo. Foi ele que Zeus venceu. E se tornou imortal. Para a humanidade.

Odin, os Reis de Oyó na África, e tantos outros… Foram grandes homens. Alguns deles eu tive oportunidade de conhecer. Mas falarei sobre eles mais tarde.

Os homens de pele vermelha do Oeste eram magníficos, os negros do Sul também. Os brancos do Norte e os Amarelos do Leste, não eram tão irascíveis, nem belicosos como a História diz. Não nessas épocas. Existiam disputas, sangue era derramado, existiam diferenças. Mas nada que pudesse destruir a todos. Ninguém desejava se sobrepor ao outro. Queriam apenas viver suas vidas em paz.

E pra mim, nada se alterava… Até o dia em que, no que depois ficou conhecido como Ciméria, eu conheci Cibele…

… e tudo ficou diferente…

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