Aeternus – Cap. II

Nos tempos em que falo agora, já existiam línguas que separavam os povos. A Torre de Babel que mencionam na Bíblia foi só uma alegoria: os povos foram se juntando, por vários e vários anos, e criando sua própria língua. Sua própria maneira de se comunicar. Muito mais pra esconder o que diziam de estranhos, do que por uma necessidade de identificação. Antes disso, apenas se faziam gestos, grunhidos, se apontava para aquilo que se falava, e tantas outras coisas. Claro, não havia necessidade de dizer muito, uma figura de linguagem não era necessária. Que fique claro: as coisas foram acontecendo por necessidade, não porque havia grandes planos. Pelo menos foi o que pensei durante muitos e muitos séculos. Mas falarei sobre isso depois.

A Ciméria era uma região ao norte, onde hoje estão a Rússia e a Ucrânia. E uma parte do Azerbaijão. O povo havia dominado os cavalos, e por isso mesmo, se tornaram nômades. Gostava muito de estar entre eles, não apenas por não criar raízes num mesmo lugar, mas também porque sempre gostei de cavalos, sempre os considerei animais belíssimos. E no meio desse povo, encontrei uma das mulheres que mais amei: Cibele.

Ela passou para a Eternidade como uma proto-deusa, como sendo a Magna Mater Romana. Mas eu a conheci quando era apenas uma jovem curandeira. Exatamente por cuidar de todos, por trazer conforto ou remédios pra quem quer que fosse, que ela ganhou essa fama de Mãe. Os Gregos, mais a frente, quiseram transformá-la em Réia, esposa de Cronos e mãe de Zeus. Mas a mãe de Zeus foi uma mulher belíssima, simples, porém forte. E o pai verdadeiro de Zeus, ela mesma nunca soube quem foi. Graças ao vinho. Mas em nada se comparava à Cibele.

Cibele tinha os cabelos longos e negros. Olhos escuros, amendoados, e uma voz delicada. E uma graça sem igual, mesmo em meio ao povo rústico onde tinha nascido. Era filha de um dos líder de bando, e ela me foi dada pelo pai, para que cuidasse dela, quando o mesmo faleceu, em campo de batalha. Como eu nunca me feri, era considerado um grande guerreiro. Mas só me tornei um guerreiro de fato anos à frente, quando conheci os senhores Samurais, no Oriente. Eu apenas não me feria, até ali. E por ser considerado um homem de valor, recebi a filha daquele homem.

Foram dias felizes. Já fazia muito tempo que não parava em lugar nenhum, e a vida com ela era sempre pura alegria. Estranhamente, o povo não enfrentou batalhas, enquanto vivemos juntos. Nunca tivemos filhos, jamais soube porque. Soube nos últimos séculos, quando a medicina avançou o suficiente pra me dizer que eu era estéril.

Mas foram dias de pura alegria, de rotina alegre, de paz, de amor e sexo. Jamais tive ciúmes dela, nem ela de mim. Éramos confiança e entrega em estado bruto. Mesmo quando ela começou a dar sinais de envelhecimento, e eu, como sempre, inalterado.

Eu a via perdendo a cor dos cabelos, as rugas se juntando em sua pele. E ainda assim, a considerava a mais bela de todas. Os outros a estranhavam avançando em idade, e eu sem uma única mudança. Não perguntavam, mas era fácil de compreender nas feições que eles notavam algo estranho. Especialmente quando aqueles que eu tinha conhecido quando crianças se tornaram homens feitos. E seus pais, que haviam lutado comigo, iam morrendo, por conta da própria velhice.

Eu não dava atenção a isso, estava feliz. Até que ela não conseguiu mais levantar da cama, e em poucos dias, se foi. Calmamente, durante o sono, de mãos dadas comigo, como fizemos durante todo o tempo juntos.

Chorei como uma criança, soluçando. Não entendia porque isso acontecia. Porque eu não conseguia manter uma alegria em meu coração, as pessoas que faziam minha vida completa sempre se iam. Enterrei o corpo dela ao lado de uma grande árvore, sem que ninguém me visse. Peguei apenas o necessário em nossa casa. E me fui, outra vez.

Conheci um homem em meio a aquele povo, que chamavam de Conan. Mas ele era gordo, careca, e manco. Em nada parecido com o guerreiro das estórias em quadrinhos.

Segui para o grande Norte. O frio iria bem com meu luto.

Lá conheci um homem que havia arrancado seu próprio olho. O chamavam, na época, de Wotan. O homem moderno o chamou Odin.

É assim que me lembro dele…

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