Aeternus – Cap. III

Ainda não consigo me lembrar de um inverno tão frio quanto aquele. Talvez porque minha alma estivesse tão constrangida, tão doída, talvez o frio estivesse em mim.

Mas aquele inverno traria coisas boas. Traria não apenas o fim do meu luto por Cibele, mas também uma estranha seqüência de eventos me fez voltar aos eixos, e buscar mais vida.

Aos que chamam a mitologia cristã de absurda, saibam que a Yggdrasil não passava de uma grande bétula. Havia sido plantada Búrin, avô de Odin, e durava gerações. De vários pedaços dela foram feitas armas que passavam dentro da família, e se tornaram relíquias, perdidas tempos depois.

Quando conheci aquele povo, sentia ainda muita tristeza dentro de mim. Havia mulheres lindas, como Sif e Gudrun (que apesar de sua opulência, era uma mulher belíssima e gentil como poucas que conheci), mas nenhuma delas animava minha alma. Odin me via dessa forma todos os dias, e pediu a Thor que me levasse para as batalhas. Quem sabe isso me animasse.

Loki era apenas um rapaz travesso. Alguns o pintam como um ser desprezível e arrogante. Mas ele nem desejava poder, ou qualquer coisa. Queria apenas curtir sua vida finita. Tanto que pereceu em campo de batalha, coisa que ele tanto odiava. Era sim, irmão de Thor, e ambos tinham um afeto enorme um pelo outro.

Apesar da aparente brutalidade que cercou toda a estória daquele povo, que daria origem aos vikings, eles eram um povo muito místico. E conhecendo sua estória, sua visão do mundo, e especialmente, um certo feiticeiro desse povo, chamado Balder, que comecei a questionar efetivamente o porque de minha vida não ter um fim. Porque o tempo não passava pra mim? Todos se iam, e eu permanecia. Tudo o que eu aprendia a amar escoava pelas minhas mãos, tomados de mim pelo tempo.

Uma certa noite, Balder me levou a um circulo de pedras, bem ao norte da aldeia. Lá estavam Thor, Tyr, Loki e seu filho Fenrir, o próprio Odin, e a única mulher era Sif, esposa de Thor.

Faziam um ritual de cura, fizeram oferendas, orações, desenharam símbolos no chão e nas pedras, que hoje são chamados de runas. Confesso que chegava a emocionar a beleza de tal momento, ainda mais com a Aurora Boreal no céu.

Mas num dado momento, Balder se aproximou. Estava diferente, como que em transe. Ele apenas tocou minha testa. E eu não conseguia mais distinguir o que era em cima ou embaixo. Esquerdo ou direito, cores não se encaixavam mais. Não conseguia nem mesmo definir cores. Não sentia mais meu corpo. Não sentia mais nada. Achei por um momento que tivesse morrido. Mas não.

Em meio a aquela confusão, eu podia ouvir Thor e Odin fazendo orações, um som longínquo de suas gravez vozes em uníssono. E um canto baixo, feminino, que eu sabia ser a voz de Sif me guiava.

Não para fora, mas cada vez mais para dentro. Como se minha viagem fosse pra dentro de mim, pra aquilo que mais recôndito que eu tinha dentro de mim.

Foi quando eu vi, pela primeira vez. A Face.

Eu só a veria outra vez anos depois, com Krishna. E depois com Siddharta, Yeshua, Catlicue, Omolu, Amaterasu e os grandes mestres que conheci. Esse havia sido meu primeiro contato. Com a força que os homens chamam simplesmente de Deus.

Agora, acima de qualquer coisa, acima até do amor que eu achava ser a coisa mais importante, eu tinha uma motivação, uma busca. Saber quem eu era. E buscar a Face, para descobrir porque.  E se haviam outros iguais a mim. Depois soube que não. Era apenas eu.

Ainda hoje, estou sem resposta. Mas sei que em algum momento, me será dado saber.

Quando voltei a mim, já era dia. Todos estavam exaustos pela vigília que fizeram, para que eu não me perdesse.

Desde aquele dia, guardo esses grandes homens do norte em meu coração. Vi o Tempo levar cada um deles. E com eles permaneci até enterrar o último deles. Apenas para satisfazer sua curiosidade, caro amigo, foi Fenrir, filho de Loki. E não, o Ragnarok nunca veio. E nem virá.

E Odin arrancou seu próprio olho por causa de uma infecção.

Após enterrar Fenrir, que morreu bem velho, fui-me para o Sul. Para conhecer os grandes reis de Oyó.

Xangô, Ogum e Oxóssi, que foram os primeiros a realmente me ensinar como ser um guerreiro. 

Lembro-me de cada um como se fosse ontem…

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