De mitos e fábulas

Sempre gostei de estudar religiões, mitos e lendas antigas. Sempre achei interessante a maneira como algumas coisas eram contadas, ou as partes fantásticas dessas estórias, que sempre traziam algo “mágico”, que “salvava” ou “condenava” um “herói” ou um “vilão”.

Eram pra mim como as estórias em quadrinhos. Pequenas fábulas, ou epopéias, que me levavam a um mundo onde tudo era possível.

Hoje, já “burro-velho”, vejo as coisas de outra forma… E considero até mesmo a possibilidade de que algumas dessas coisas tenham acontecido. Não que Loki realmente tenha se transformado em uma égua e dado a luz à Sleipnir, ou que o Boto realmente seduza mulheres ribeirinhas no Amazonas.

Mas aprendi, especialmente depois que tive contato com a Psicologia Analítica Junguiana, que todas essas estórias tem algo sobre nós mesmos. E que, em alguns casos, se conseguirmos olhar além do texto, entendendo suas metáforas, é mais evidente ainda o significado profundo que essas estórias podem nos trazer.

 

“Complexo de Édipo? O negócio aqui é arquétipo e inconsciente coletivo, brother….”

Como exemplo, na mitologia grega, pensemos em Zeus. Zeus matou o pai, Cronos, e se tornou o rei do Olimpo, e rei de todos os deuses. Cronos, em português, significa Tempo. Zeus derrotou o Tempo. E se tornou imortal. E o maior entre todos os viventes.

Daí é fácil pensar que Zeus pode ter sido um homem, um grande líder, que realizou grandes coisas, venceu sua própria mortalidade (ou medo da morte) e gravou seu nome na posteridade. Tanto que até hoje falamos nele.

E isso não acontece apenas nos mitos gregos, mas em vários mitos, lendas e textos sagrados, através do mundo. Jung chamou essas estórias e heróis comuns de “arquétipos”. Pois em toda religião, mitologia ou folclore, sempre há um “herói”, um “vilão”, um “sacerdote”, um “mestre”, um “messias”, uma “Grande Mãe”, um “Pai de todos”. Sempre há um herói de moral duvidosa (um trickster, como diz Jung. Ex.: Loki, na mitologia nórdica; Hermes, na grega; Exu, na iorubá; e nos quadrinhos, qual herói mais claro nisso que o Wolverine?), um herói que traz a sabedoria, ou evolução de um povo (Thor e Tyr, nórdicos; Prometeu e Athena, gregos; Oxalá, Ossain e Xangô, iorubás; nos quadrinhos, Dr. Manhatan, de Watchmen), um herói guerreiro (Thor e Balder, nórdicos; Ares e os grandes heróis gregos, como Hércules, Perseu, Teseu, Jasão, Aquiles, Ulisses, etc.; Ogum e Oxóssi, iorubás; e pra falar pouco nos quadrinhos, Capitão América e Super-Homem) e heróis gêmeos, esses um pouco mais raros, mas que ocorrem na mitologia asteca, nórdica, iorubá e tantas outras.

Mas o que realmente importa, é que essas estórias falam sobre nós, sobre momentos que vivemos, sobre coisas que acontecem conosco. Estudar o mito de Narciso, por exemplo, pode nos levar a entender nossa relação com nosso próprio ego, e com a necessidade deste, de porventura, ao se deparar consigo mesmo (auto-análise), de “morrer”. Ou nos vermos em Sísifo, empurrando rochas montanha acima, apenas pra que ela volte ao solo, pra que tenhamos que começar tudo de novo. Ou como Prometeu, ao ter feito algo de bom por outros, ainda ter que pagar por isso, tendo nosso fígado devorado por uma ave de rapina.

Pode ser uma viagem interessante, pra dentro de si mesmo…

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