De mitos e fábulas III: o macro, o micro e o inconsciente coletivo

Quando se pensa sobre tudo isso, fica fácil extrapolar o sentido da coisa toda para outros campos, e outras sensações e sentidos.

O próprio Jung levou toda a questão dos arquétipos para o nível do Inconsciente Coletivo.

“O Reino de Deus está no meio de vós…” (Lc 17:21)

O Inconsciente Coletivo é onde ficam guardados todos os arquétipos, é um lugar imaterial onde tudo começa, e de onde tudo se reflete para qualquer lugar do mundo, e talvez do próprio Universo. Para se fazer uma alusão mais clara, basta lembrar o conceito do “Mundo das Idéias”, introduzido por Platão.

Num exemplo, levando em conta a história da nossa civilização, pensemos:

Há séculos atrás (e em alguns casos, é algo que ainda persiste), mesmo na própria Europa, existem vilarejos, aldeias (pra nós, “aldeia” dá a noção de índio, mas o conceito de aldeia é mais amplo). As pessoas que moram nesses lugares, têm uma mitologia própria, uma identidade social e pessoal. Digamos, uma pequena aldeia no norte da Baviera.

Estranho? Não… É parte do inconsciente coletivo local 

Essa aldeia tem famílias que moram lá há séculos. Todas as famílias se conhecem por nome e sobrenome, e cada uma delas tem um antepassado que fez algo importante por aquele núcleo. Assim, se formou uma mitologia. E sendo assim, esses aldeões tem uma identidade própria, uma linguagem própria, um modus vivendi próprio. Eles sabem que pertencem a aquele lugar. Que é onde suas raízes estão.

Mas ainda que seus mitos, para eles mesmos, tenham uma estória única, a mesma estória vai ser reconhecida em qualquer lugar do mundo. Houve aquele que foi o herói que destruiu algum animal causava terror na região. Houve aquele que descobriu como se cultivar alguma planta que faça parte da alimentação. Aquele que soube controlar os animais. Aquele que foi um sábio/legislador que trouxe uma época de paz e prosperidade. Aquele que foi o grande guerreiro que venceu algum inimigo daquela “unidade social” (se é que podemos chamar assim). São os arquétipos que se repetem. Em qualquer lugar, em qualquer povo, em qualquer época. E isso tudo vai gerar uma história, um folclore, uma mitologia que vai mexer com um ou mais povos, no futuro. Sabemos como é o expansionismo humano e como as culturas se encontram e se misturam.

Justamente por essa questão comum, Jung definiu o inconsciente coletivo. É algo que transcende espaço e tempo. E acontece com toda e qualquer civilização. É como se fosse o inconsciente da raça humana, como um todo. É onde tudo está gravado, é onde estão todos os comportamentos que teremos, todas as nossas possíveis ações.

Porém, com o avanço da civilização, as “aldeias” cresceram. Tomemos uma megalópole como São Paulo, mesmo.

De onde vem todos eles? Onde estão suas raízes?

O “sentimento de aldeia” persiste, mas diluído. Moramos em bairros, onde temos amigos de infância, e tudo o que vivemos, constitui uma mitologia, um folclore próprio. Mas ele não é tão arraigado como daqueles aldeões da Baviera. Dificilmente, passamos mais do que uma geração num mesmo bairro, numa mesma vizinhança. Não digo isso de uma forma negativa, é apenas como as coisas são, em nossos tempos. Mas como dizia, existe uma mitologia “rasa”, ali. Se elevarmos para os distritos, a mitologia se aprofunda, mas se despersonaliza. Os distritos têm grandes heróis, hoje em dia, beneméritos que acabam dando nome a Escolas. Mas se torna impessoal; via de regra, a família que carrega aquele arquétipo, pouco se interessa.

Se subirmos nessa “escala”, vamos chegar as Zonas da Cidade; é óbvio que existem diferenças lingüísticas, sociais e “mitológicas” em cada uma. As pessoas que moram na Zona Oeste tem uma linha de pensamento, os da Leste outro, do Norte mais outro, no Sul mais diferente. Sem contar os do Centro. Os comportamentos são diferentes, as vivências são diferentes, mas não há mais algo pessoal, familiar. O sentimento de aldeia já não existe, senão apenas como o “somos todos paulistas”. Mas a história em comum não nos une, não nos faz mais fortes. Claro, poderíamos mesmo citar os jovens mortos na Revolução de 32, Martins, Miragaia, Drausio e Camargo. Foram heróis, sim. Mas não constituíram uma mitologia, não são parte do folclore, não trazem nada mais que um sentimento de heroísmo. Eles não fazem com que nos identifiquemos como paulistas. É apenas uma estória da nossa cidade.

“Nós nos sacrificamos, por São Paulo… E você nem liga…”

Com tudo isso, chegamos a um ponto onde notamos que temos uma identidade fraca. Nos ligamos a coisas e pessoas que tem algo em comum com aquilo que gostamos ou fazemos, mas não temos uma ligação que se enraíze. Algo se perdeu na nossa história. Talvez pra sempre. Mas podemos enxergar a questão de como hoje, tantas estórias de magia e fantasia façam tanto eco em nós. A Magia se perdeu. Não sabemos mais quem somos, e esperamos um herói que nos ensine. Mas o maior herói, meu amigo… É você.

 

 

One thought on “De mitos e fábulas III: o macro, o micro e o inconsciente coletivo

  1. Olá, Edu, achei muito interessante seu texto. O que mais me chamou a atenção foi o seguinte ponto: “Com tudo isso, chegamos a um ponto onde notamos que temos uma identidade fraca. Nos ligamos a coisas e pessoas que tem algo em comum com aquilo que gostamos ou fazemos, mas não temos uma ligação que se enraíze.”

    Acho que a identidade que temos pode ser fraca se compararmos com povos que se reconhecem e que se sintam parte de um coletivo vibrante. Por exemplo, um alemão ou um norte-americano que sinta orgulho de seu país. O brasileiro nunca teve uma identidade coletiva muito forte no sentido político-histórico – e sim quando se trata de esportes como o futebol, o MMA (mais recente) e o carnaval.

    No entanto, acredito que o individualismo apontado em relação aos paulistanos e seu modo de vida diferenciado entre si demarcado pelas zonas da cidade, seja SIM, uma identidade fortíssima do ponto de vista coletivo. A suposta de uma identidade fraca apontada pelo texto, creio que seja justamente extremamente forte do ponto de vista coletivo. Explico: dentro do que engloba o coletivo há essa identidade individualista. você poderia me indicar uma bibliografia sobre Jung para que eu entenda sobre os arquétipos? Eu me interessei muito pela temática do teu texto. Inclusive acho que teu texto leva o leitor a se interessar inclusive pela antropologia:-)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s