A história de Bety e Alceu

Bety andava requebrando pela Praça da República em cima dos saltos altíssimos, saia de paetê e blusa preta. Dona de um corpo escultural e de uma beleza sem igual, era conhecida e respeitada por todas as meninas que trabalhavam no mesmo ponto que ela.

Todas as noites Alceu passava pela Praça para ir pra casa, encontrar mulher e filhos. Sempre sujo e mal trapilho, passava por Bety e suas colegas soltando gracinhas e gracejos, mas os mais delicados eram sempre direcionados à Bethy. Sentia que precisava cortejá-la, provar aquele deleite para os olhos.

Uma noite, ao voltar para casa, Alceu tomou banho, penteou os cabelos, vestiu-se dignamente, e disse à esposa que iria encontrar o Zé e o Paulão pra uma cerveja no bar ali perto. Ao sair de casa, e dirigiu-se à Praça, esperando encontrar aquela morena requebradeira. Bety descia de um carro quando Alceu foi ao seu encontro. Alvo de chacota pelas outras travestis por ser mais baixo que Bety, não se intimidou e chegou na moça, que lhe recebeu muito carinhosamente. Alceu convidou-a para tomar um trago no bar, e eles foram. Conversa vai, conversa vem, Alceu sentiu uma coisa familiar na moça, como se a conhecesse a muito tempo. Ele contou a ela um pouco da sua vida e ela contou a ele como veio pra São Paulo com os irmãos em busca de emprego, e a perda de contato com os irmãos depois que um trabalho separou os três. Aquela história era demais familiar para Alceu, pois havia passado por uma situação bem parecida com aquela, para não dizer idêntica. E ficou atento a isso.

Terminadas as bebidas, se dirigiram a um quarto de uma espelunca no centro. Ele então sentou na cama, enquanto Bety se despia sensualmente. No momento em que ela tirou a blusa, foi revelada uma cicatriz na altura das costelas que chamou a atenção de Alceu. Curioso para saber onde a moça havia conseguido a cicatriz, perguntou a ela, que respondeu de prontidão, com a voz embargada pelo álcool.

-Numa das minhas folgas, antes de eu virar puta, estava num bar com meu irmão mais velho, e um bêbado começou a sacanear com a cara dele. Eu tentei intervir, e o bêbado me deu uma facada.

Apenas de calcinha, Bety ajoelhou-se no chão para tirar as roupas de Alceu. Enquanto ela desfivelava seu cinto, Alceu pensou nas histórias que ela havia lhe contado, e na cicatriz. Olhou mais atentamente para o rosto da moça, e ficou branco. Apesar das devidas modificações corporais e da maquiagem, reconhecera aquele rosto. Seu corpo foi tomado pelo ódio. Ele então pegou Bety com força pelos braços e passou o cinto por eles, prendendo seus braços. a empurrou para a parede, desferindo então um soco em seu estômago. Ela arqueou sem ar e Alceu aproveitou a situação para desferir um soco em seu rosto. As grandes mãos dele envolveram o pescoço de Bety, enforcando-a sem piedade.
Ela não conseguia falar, e o ar cada vez mais lhe faltava.


“Por que você está fazendo isso?”, sussurou.
“Porque eu te reconheci, seu filho de uma puta! Você merece morrer Alberto, seu viado de merda! E eu não aceito irmão meu dando o cu! To te fazendo um favor e pra família. Tem que ser cabra macho, e se não for, merece morrer!”
Bety, ou melhor, Alberto, abriu a boca, num misto de choque e tentativa de respirar, o que foi em vão, pois estava cada vez mais perdendo os sentidos.

Quando sentiu o corpo de Alberto já sem vida em suas mãos, deixou que caísse no chão e, não satisfeito, chutou diversas vezes seu tronco, até que seu ódio diminuísse. Sentindo-se mais calmo, mas ainda consternado, desafivelou o cinto dos braços do irmão e recolocou-o em suas calças. Pegou o dinheiro da bolsa que o falecido carregava, como pagamento pelo transtorno. Saiu do hotel sem olhar pra trás, e foi para casa repousar no seio do lar, como se nada tivesse acontecido.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança é mera coincidência. Este texto não retrata minhas opiniões.*

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