Modern Noir

O telefone tocou insistentemente. O número era desconhecido. Ele atendeu, reconhecendo a voz dela nas primeiras palavras. E percebeu que ela chorava, dizendo algumas palavras desconexas, entremeadas por soluços e pausas. Conseguiu apenas divisar as palavras “Me ajude”.

Pediu a ela que se acalmasse; ele estava a caminho. Desligou, apagando seu cigarro no cinzeiro e buscando roupas para a noite fria. Pegou suas chaves e saiu pela porta.

Encontrou-a ainda chorando, sentada no meio fio. Ajoelhou-se a frente dela, chamando sua atenção. Fe-la levantar, abraçando-a. Ela correspondeu, reconfortando-se em seus braços. Ele sentiu os braços dela apertando-o com força, e as lágrimas dela começaram a correr mais fortes. “Está tudo bem, agora…” disse ele.

“Você sabe que não está”, ela respondeu. Realmente, ele sabia que não estava. Os médicos haviam dado a ela apenas mais alguns meses. Naquele meio tempo em que ela havia desaparecido, imaginou que ela teria buscado viver tudo o que fosse possível, em toda a sua intensidade. Mas não; ela teve medo de piorar sua condição e diminuir seu tempo. Só ele sabia disso. E agora, que o tempo estava realmente terminando, ele era o único a estar com ela.

“Quanto tempo mais?” – perguntou.

“Alguns dias… Ou talvez, algumas horas”, respondeu ela, enxugando as lágrimas.

Sentiu um grande aperto no peito. Não conseguia conceber o que se passava dentro dela, como era possível viver sabendo de tal coisa. Mas sabia que ela o havia escolhido: era com ele que ela queria passar seus últimos momentos.

Sem quaisquer palavras, levou-a para sua casa. Notava que ela caminhava sem vontade. Pudera; a qualquer momento, a vida se extinguiria nela.

Andavam abraçados, e ele sentia seu perfume. O mesmo, desde sempre. Os cabelos ruivos, encaracolados, pelo meio das costas, sempre soltos. A pele muito branca e sedosa. A boca carnuda. E os grandes olhos esverdeados, que eram sempre cheios de alegria, de vontade de viver, que agora estavam apagados. O olhar se dirigia apenas ao chão.

Chegaram a sua casa, e ele a fez deitar no sofá, sentando-se no chão, ao lado dela. Havia lhe trazido um grande cobertor, vermelho como seus cabelos. Foi um presente dela, da época em que namoravam. Lembrou-se do cartão: “Pra que você não se esqueça de mim nas noites frias”, e uma grande marca de batom logo embaixo. A assinatura que apenas ele conhecia.

Um pequeno sorriso veio no canto da boca dela, reconhecendo o presente. Uma pequena lágrima escorreu de seus olhos, e ela o encarou. “Você…” e não conseguiu completar a frase. Os lábios tremeram. Ele alisou seus cabelos e disse: “Eu disse que estaria com você, em qualquer momento… Como você esteve comigo”.

Ela tomou sua mão, colocando-a em seu pescoço. Puxou-o para si e lhe deu um beijo.

Seus olhos brilhavam uma luz opaca, um brilho de desesperança. Ele se lembrou do dia em que a conheceu. Ela havia lhe contado que era exatamente isso que via em seus olhos: um brilho de desesperança. Nesse dia, ele entendeu o que ela quis dizer.

E ele repetiu para ela as mesmas palavras que ela havia usado: “Escolha uma forma de viver que não envergonhe sua alma”.

Ela sorriu.

Ela lhe contou sobre seu tempo fora, sobre as coisas que quis fazer e não fez. Sobre as que fez e se arrependeu. E lhe falou sobre a sensação de ter perdido tempo; afinal, tudo acabaria em pouco tempo. Mas terminou, sabendo que não havia envergonhado sua alma. Viveu o que podia, conheceu as pessoas que devia conhecer, e amou tanto quanto poderia amar. Apesar de ver sua vida terminando, não tinha arrependimentos. Apenas um.

“Qual?” – perguntou ele.

“Eu podia ter passado todo esse tempo fora, com você…” – e as lágrimas voltaram a correr, e ela o abraçou mais forte do que nunca.

Uma dor forte no peito o deixou sem ar. Mas precisava resistir.

Ficaram assim abraçados, e lembrando tudo o que viveram. Lembrando de cada momento, cada noite juntos, cada carinho, cada momento de saudade. Ela quis sentir seu toque, e ele não recusou.

Adormeceram.

O dia amanheceu. Ele abriu os olhos, notando que ela o fitava. Novamente com aquele brilho opaco nos olhos.

Sorriu. Mas ela não sorriu de volta.

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