O Lado Negro I: aquilo que negamos

O ser humano é impedido ser ele mesmo. Ele não demonstra, e é impedido de demonstrar todas as suas potencialidades. Alguns definem isso como a “sociedade castradora”, ou como o “Deus punitivo”, ou como se diz na Psicologia, “vivemos num mundo que gera a neurose em nós”.

Sejam por convenções sociais, convicções religiosas, ou por disfunções familiares/sociais, somos impedidos de sermos nós mesmos, em nossa totalidade. Um sem número de desejos são frustrados, e é necessário uma adaptação, para que as coisas fluam bem, ou no mínimo, não gerem uma doença psíquica.

Piada de psicólogo: “O neurótico constrói um castelo de areia. O psicótico vive nele. E o psicólogo cobra o aluguel”.

A pergunta que cabe aqui seria: Isso é REALMENTE ruim?

Algumas pessoas dizem que o ser humano deve viver sem limitações, que nenhuma vontade deve ficar insatisfeita, ou que limitar uma pessoa é errado. Que institucionalizar um ser humano é limitá-lo de tudo aquilo que ele tem a capacidade de fazer. Será?

Iniciemos pela legislação primária que a humanidade adotou, que foi a religiosa. Porque não haveria autoridade maior que a de Deus, ou dos deuses. Olhando apenas pelo viés judaico-cristão (pra não nos estendermos demais), a primeira legislação “castradora” foram os 10 Mandamentos. Alguns analisam isso como um “contrato” de devoção e obediência, e não menciono apenas os próprios judeus, que crêem ou criam que bastava seguir isso para receber o “favor” de Deus. Os “pensadores” (pseudo-intelectuais) de hoje, dizem que aí se inicia toda uma história de frustração pra humanidade, sendo subjugada por “uma pseudo-entidade que está no Céu julgando cada atitude sua”.

Porém, o que há de tão horrível nisso? Os 10 Mandamentos são tão horríveis assim?

  • 1º – Amar a Deus sobre todas as coisas.
  • 2º – Não usar o nome de Deus em vão.
  • 3º – Lembra-te do dia de Sábado para santificá-lo.
  • 4º – Honrar pai e mãe.
  • 5º – Não matarás.
  • 6º – Guardar castidade nas palavras e nas obras.
  • 7º – Não roube.
  • 8º – Não levantar falsos testemunhos.
  • 9º – Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos.
  • 10º- Não cobiçar as coisas do próximo.

“E você acha que foi pro seu mal?”

Pergunto: o que há de tão castrador nisso? Claro, a própria Igreja usou estes mesmos mandamentos para exercer controle sobre o povo, e isso é fato indiscutível. Mas em ultima analise, colocando-se na posição de observador, o que há de tão errado? Amar a Deus acima de tudo, não seria uma forma de prevenir a alma de focar seu amor no que é perecível, e evitar o sofrimento? Honrar os pais, não é algo natural? Não matar, é esforço pra você? Não roubar, é algo limitador? Mentir, manter-se casto (a castidade aqui não é meramente sexual, mas abster-se dos pensamentos que não trazem bem), não invejar, isso tudo é errado?

Ainda no eixo judaico-cristão, lembrando o livro do Levítico; o mesmo foi criado para manter os fugitivos do Egito numa unidade coesa e sadia. Proibindo o consumo da carne de certos animais, evitavam-se doenças parasitárias. Evitando certas práticas sexuais, evitava-se uma contaminação em massa por qualquer doença venérea. Sim, algumas medidas ali são abusivas, ou coíbem a liberdade pessoal, mas visavam manter uma quantidade grandiosa de pessoas sadias. Lembremos que como conta a Escritura, eles passaram 40 anos no deserto, vagando. E precisavam se manter vivos. Havia a necessidade de uma limitação, uma castração. Por um bem maior.

Moisés, aqui no cantinho direito: “Vou bater com pau na mesa pra mostrar quem é que manda aqui!”

Sempre existe em nós algo obscuro, algo “negro”. Jung chamou essa instância da psique de “Sombra”. E é sadio que isso exista. A sociedade, o outro, o mundo não aceita determinadas coisas. Aquilo que Freud chamou de “Superego”. Aquilo que nos limita.

Somos todos um pouco Jekyll e Hyde

O próprio Freud postulou que essa limitação, esse “freio”, foi o que fez a civilização surgir. Quando os desejos foram limitados, começamos a usar a energia despendida nisso em outras coisas. E aí a humanidade começou a ser criada. Em termos psicanalíticos, foi quando a libido começou a ser sublimada. E a humanidade criou tudo aquilo que nos separa daquilo que não nos faz bem.

Ou seja: aquilo que é chamado de limitação, na verdade, é aquilo que nos impede de fazer aquilo que não é sadio, nem para nós mesmos, nem para a sociedade. Não concordo, nem apago qualquer excesso cometido por séculos por qualquer denominação religiosa, ou política, mas essas coisas foram necessárias.

Concluindo, o mal existe em nós. Muitas vezes não aceitamos isso, NEGAMOS isso. E certas medidas, históricas, foram tomadas para nos proteger de nós mesmos. Sim, aquilo que negamos é parte de nós: existe em nós a violência, a cobiça, a luxúria, a gula, os pecados capitais, enfim. E isso não é errado, porque são pulsões da própria vida. Mas o excesso deve ser limitado, para que essas energias possam ser melhor direcionadas. Para o bem de todos.

Sim, isso também é você. E acredite: isso é o que te faz único

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