A vida e a morte em pauta

Segunda-feira só não terminou tão bem quanto começou porque houve um velório de família e a notícia do suicídio de um adolescente… Pois é, nem sempre temos boas notícias para dar. Mas toda a situação me leva, como sempre, a pensar não na morte, mas na vida. Será que aproveitamos nossas vidas tanto quanto podemos? Ou melhor, será que aproveitamos os momentos que temos com pessoas queridas? Afinal, todos nós sabemos que um dia não estaremos mais aqui, nem aqueles que amamos. Só não sabemos quando, nem quem vai primeiro.

O mais estranho é que estava refletindo sobre a questão antes mesmo dos acontecimentos do dia de hoje. Tudo começou na discussão sobre filmes em uma de minhas aulas. Discutíamos clonagem e recomendei que os alunos lessem ou assistissem Não me abandone jamais (Never let me go, livro de Kazuo Ishiguro, filme de Mark Romanek). O filme não é maravilhoso, apesar do enredo (o livro-base é fantástico), mas pode gerar muitas ideias. Na história, clones de seres humanos são criados e educados sabendo que só existem para doar órgãos até morrerem e a grande sacada é: qual é a diferença entre o clone e o ser humano “original” se todos temos o mesmo fim? 

Acho que vale lembrar que escrevo não porque estou deprimida em razão das pessoas que se vão – se viveram como gostariam, o fim inevitável não é para se lamentar, mas apenas ser visto como conclusão, ninguém vai viver para sempre – mas porque me preocupo e muito com os vivos, aqueles que respiram, comem, bebem, dormem mas que se esquecem de viver. Não é esta a pior morte de todas? A morte da alma enquanto o corpo vive. Talvez seja esta a razão do suicídio do adolescente supracitado, não teremos certeza. Talvez ele tenha decidido matar o corpo porque sentia que sua alma não vivia. Acho isto muito triste. Acho também triste irmos ao velório e lamentarmos não ter feito tudo o que gostaríamos de ter feito ao lado da pessoa querida. E acho mais triste ainda quando não aprendemos a lição velório após velório. Acho deprimente o quanto não abraçamos os amigos, os familiares, aqueles que amamos. Acho o fim o quanto falar “eu te amo” é tabu para alguns de nós. Ou o quanto o sorriso é visto com olhos de almas adoecidas – é mal interpretado se for gratuito quando deveria ser motivo para outro sorriso.

Acho ridículo nos tornarmos tão egoístas a ponto de chorarmos a morte de outros mas sermos incapazes de salvarmos nossa própria alma simplesmente vivendo e dando a pessoas queridas a certeza de que são amados. Acho muito feio o amor e a amizade não serem incondicionais quando é isso que queremos. Acho muito feio matarmos nossas almas quando há tanto para se viver. Antes que os corpos pereçam.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s